Gustavo Bonfiglioli - Especial para O Estado
Logo abaixo das ruas de Barcelona, existe uma outra malha de tráfego.
A uma profundidade de 5 metros, o lixo de casas, escritórios e até
hospitais da capital catalã viaja a uma velocidade de cerca de 70
quilômetros por hora por meio de 113 km de tubulações, rede a vácuo que
literalmente suga os resíduos produzidos pela população. Todas as vias
conduzem aos mesmos destinos, centrais de armazenamento onde o material é
processado, estocado em contêineres e finalmente levado a estações de
reciclagem ou de incineração.
A chamada coleta pneumática, desenvolvida pela empresa sueca Envac,
transformou a gestão de resíduos de Barcelona desde que foi adotada, no
início dos anos 90. Hoje a cidade tem 30% do lixo coletado em oito
pontos. Cada uma dessas malhas subterrâneas é independente, conectada
por dutos a uma central específica. Pode parecer futurista demais, mas
existem 600 redes semelhantes espalhadas por 150 cidades de todo o
planeta.
As vantagens ambientais são muitas: o fim dos caminhões de lixo, a
diminuição das pilhas de sacos nas ruas e o estímulo à coleta seletiva,
já que cada tipo de resíduo – reciclável, não-reciclável e orgânico – é
lançado na rede subterrânea separadamente e vai para contêineres
próprios. “A ausência de caminhões de lixo evita odores, acúmulo de lixo e
melhora o tráfego. Além das vantagens ambientais, o sistema proporciona
um melhor aproveitamento do espaço urbano”, afirma Carlos Vazquez, chefe
do Departamento de Gestão de Resíduos da prefeitura local.
O bairro de Lesseps, no distrito de Gràcia, adotou a coleta a vácuo
recentemente, em 2009. O presidente da associação de moradores, Josep
Maria Flotats, é um dos entusiastas do sistema, que atende 5,6 mil
pessoas em Lesseps. “O bairro está mais bonito, limpo e sem odores. Não
há mais acúmulo de lixo pelas ruas à espera dos caminhões de coleta,
cuja ausência também tornou o bairro menos barulhento”, conta o barbeiro
de 65 anos, que organizou uma visita à central de coleta para os
moradores no fim do ano passado. “É importante mostrar à população para
onde de fato está indo o lixo que ela produz. Todos ficaram
satisfeitos.”
O vice-presidente da Envac Iberia, Albert Mateu, que administra os
sistemas na Espanha e em Portugal, afirma que a coleta a vácuo deve
cobrir 70% de Barcelona até 2018, ano em que a empresa espera concluir
as outras redes de coleta projetadas para a cidade. “Infelizmente, não é
possível chegar a 100% por conta de alguns bairros com pequenas colinas
e irregularidades no terreno, que inviabilizam a instalação dos dutos”,
explica.
Barcelona instalou o primeiro sistema de coleta subterrânea para os
Jogos Olímpicos de 1992. O sistema criado para a vila olímpica
construída com tecnologias sustentáveis no bairro Poblenou, a noroeste
da cidade, atende ainda hoje a 4,4 mil residências. O exemplo da vila
deu origem às outras sete redes de coleta, que, 18 anos depois,
beneficiam aproximadamente 324 mil moradores.

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